Chamam-me de Arte. Podes chamar-me deste modo caso também queira. Talvez mudes de opinião e, como eu, passes a não me definir mais como Arte. Digo isto pensando no que já fui e no que me tornaram hoje.
Fui aquela que, na essência, retratava as belezas do mundo, as alegrias e o orgulho. Era companheira da Música, do Teatro, da Escultura, da Dança e da Fotografia. Sem mim tornar-se-iam frias e sem conteúdo. Seriam formas sem harmonia, sons sem melodia, movimento sem intenção.
Fui feliz e, desta forma, trazia a felicidade às pessoas. Fazia bem a elas minha presença e minha harmonia.
Hoje não sou mais feliz, não me permitem ser assim. Querem que a Arte denuncie, agrida e machuque as pessoas. Não sou mais bela o quanto fui, nem mais harmoniosa. Sou hoje a denúncia do desmundo em que vives; não por vontade própria, mas por desejo daquele que me cria.
Detesto causar repugnância às pessoas, mas é isto que sinto quando olho para meu passado e comparo-me ao que foi feito de mim hoje. E a tudo isso ainda chamam de Arte. Disse, já, que é contra a minha vontade, pois não vai a favor da essência, que é trazer bons sentimentos a quem me aprecia.
Isto me causa dor e sei que dói também em ti que não podes mais encontrar harmonia, melodia e intenção em mim. Vês apenas o retrato de teu mundo sujo e frio.
Espero, um dia, voltar a ser o que fui, ou, ao menos, ser melhor do que sou hoje aos olhos de quem me vê. Quero poder ser o bem em lugar da agressão a qual me tornaram.
Não me sinto mais Arte; minha essência foi perdida. Não sei o que pensas tu; talvez Arte ou não; talvez denúncia, talvez pó. Mas espero, outrossim, que um dia vejas-me novamente com a essência, que me roubaram.
Neste dia voltarei a ser harmonia, melodia e intenção.
Texto por Isadora, em 22 de outubro de 2006. (após visita à Bienal de Artes de São Paulo)
a mulher que eu mais amei
Há 7 anos
Um comentário:
Outro dia, li um texto sobre, mais ou menos, o seguinte: A obrigação de transgredir, é um dos maiores grilhões contra a liberdade das pessoas. Aquele texto era sobre pessoas, o seu é sobre arte, mas a idéia é muito interessante sobre os dois pontos de vista. Um deve ser consequência do outro. Só não sei qual é qual.
Seria interessante ser surpreendido, vez por outra, não?
Blog legal!
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