sábado, março 28, 2009

Mas que o mistério era bom, era...

Quando penso que, hoje, o último refúgio de toda mulher que passa por um escândalo ou vexame público, já que está exposta de maneira negativa, é faturar em cima e aparecer nua na playboy – é claro, desde que tenha condições físicas para isso –, mais a exposição proposital de alças de sutiãs, elásticos de calcinhas e cuecas, que os novos comportamentos e a moda foram integrando aos usos e costumes, não posso deixar de me lembrar como eram pudicos os anos 60. Justamente a década que levou à maior revolução comportamental do século passado

No começo daquela década, nas festinhas de adolescentes em casas ou nos mingaus dos clubes, nos Jardins, um grupo de meninas inventou um código. No meio de uma conversa qualquer, surgia, do nada, a seguinte frase: “Tia Sofia telefonou” (“tchia sufia”, no sotaque quatrocentão das famílias da região)”.

A que proferia tinha nos olhos e sobrancelhas expressões cheias de conotações preocupadas. A que recebia a informação era imediatamente tomada de um ar de aflição e de uma espécie de dança de São Guido, que a punha a procurar, no decote, ombros, joelho, alguma coisa que a incomodasse muito. Como se invadida por um inseto.

Os rapazes que por acaso estivessem no círculo não entendiam nada. “Uai, vocês tem uma tia Sofia?” O que é que ela disse? O que é isso tem a ver com o que a gente estava falando?.” As garotas disfarçavam, enrolavam os moços, como já sabiam fazer então, e continuaram fazendo pelo resto da vida, fruto de um aprendizado ancestral, que já vem no DNA. Até que aquilo virou uma mania, os rapazes perceberam que era um código e um dia descobriram: uma avisava a outra se a postura deixava entrever algo no meio das pernas, se aparecia uma ponta de anágua ou combinação (não sabe o que é isso? Pergunte a mães ou avós) por baixo da saia, uma nesga de alça de sutiã surgindo no ombro, um decote que, num movimento descuido, deixava entrever um pouco mais. Os moços estavam atentos, também, porque o pouco que se podia ver, antes da revolução sexual que veio a seguir, já era uma delícia. E as moças, todas unidas, muito mais preocupadas com a reputação do que com o que se estava mostrando, já que no verão usavam seus primeiros biquínis (grandes, é verdade), protegiam-se do olho comprido masculino.

Os tempos mudaram? Com toda certeza.

Agora tudo é exposto.

Quem perdeu?

Elas é claro.

Tinham um poder imenso quando escondiam.

Eles também, pois não dão mais valor ao que anda escancarado.

É caretice? Pode até ser. Mas que o mistério era bom, era.
Davam-se asas à imaginação.

O fim das meias de seda foi outra tragédia. Mulher não usa mais meias nem no inverno

Dão um pouco de pena, de sandálias em noites geladas. Fingem não sentir frio. E os homens ficaram sem aquele fetiche.

Se elas soubessem o poder que tinham quando cruzavam as pernas e os homens ouviam aquele leve zumbido da seda... Podia ser desconcertante.

Imaginem hoje, numa reunião importante de negócios, numa mesa de executivos dos dois sexos, se uma bela mulher, no momento em que um homem está defendendo seu ponto de vista, fizesse ouvir aquele zumbidinho. Tenho certeza de que o expositor poderia perder o fio da meada ou, pelo menos, a atenção de vários outros presentes.

Uma bela sabotagem!


A mulher não quer mais usar essas armas. Os novos homens nem sabem que elas um dia existiram.

Agora são todos uma coisa só.

A guerra dos sexos era mais excitante...


CÉSAR GIOBBI (Jornalista)